20 de set. de 2007

O fim do Futebol Arte?

Se prevalecer a tese dos que consideraram o drible da foca única uma provocação, o futebol arte, tenham certeza, está com os seus dias contados. Teremos 11 coelhos contra 11 coelhos, todos se agredindo, num esporte que estará mais próximo do rúgbi, mas ainda distante dele, dado que até esse tem regras a serem respeitadas.
Eu, que sou quase um chinês no quesito paciência, confesso que ando perdendo essa qualidade quando se trata de tal assunto. As pessoas precisam entender de uma vez por todas que o drible é o principal recurso do futebol, e que foi em grande parte graças a ele que o Brasil conquistou cinco títulos mundiais, especialmente os três primeiros, quando a dupla Garrincha & Pelé pôs em prática toda a sua genialidade.
Pode-se até admitir que os treinadores criem estratégias inteligentes para dificultar a ação dos mais habilidosos. Na Copa de 1962, no Chile, por exemplo, o argentino Helenio Herrera obrigou a seleção da Espanha, que dirigiu naquele torneio, a diminuir os espaços do time brasileiro, marcando em cima, impedindo que ele tivesse liberdade para pôr em prática toda a sua criatividade. Com isso, surpreendeu efetivamente a nossa equipe, que foi obrigada a um esforço extraordinário para vencer, contando até, vá lá, com uma pequena ajuda da arbitragem. Herrera, na realidade, não fez nada que pudesse, apenas por isso, transformá-lo num mago, mas teve sobretudo coragem para levar adiante o que era óbvio, mas que ninguém, até então, havia tentado.
Muitos outros treinadores e jogadores, nos últimos 45 anos, também buscaram fórmulas para cercear a ação dos craques, inclusive lançando mão de terríveis retrancas, mas sempre respeitando as regras do jogo. De uns tempos para cá, no entanto, criou-se no futebol, principalmente no Brasil, o país que ganhou cinco mundiais, o conceito estúpido que deve-se impedir a todo custo a arte e o improviso, e mais grave, que os coelhos do cotidiano devem ser aplaudidos, porque deles não se deve abusar. Logo, o drible da foca dará definitivamente lugar aos brucutus, restando para nós, os perdedores, as cenouras da truculência.

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